Minha visão sobre não conto
- Luana Madrepérola
- 15 de set. de 2024
- 4 min de leitura
Se é para escolher uma única definição eu diria paradoxal.
Conversando com o autor, Ademar Galhardi Júnior, ele comunicou-me sobre suas escritas, em que ele mesmo tinha dificuldade em definir o gênero do que havia escrito. Pensamentos... Ensaios.... Textos... O título, então, “Não conto”. Lendo os primeiros textos, eu logo utilizei da minha licença de graduada em letras e de ter um mestrado em estudos de linguagem, com ênfase em estudos literários para dizer: “São crônicas”.
Não quero aqui usar títulos acadêmicos para me julgar detentora da verdade. Sendo honesta, quando se trata de verdades sou bastante cética. Tudo se trata de um ponto de vista, e aqui estou apenas analisando do meu ponto de vista. Não posso dizer que seria imparcial, tendo em vista que tenho o autor como um grande amigo jamais poderia ser imparcial em minha análise. Não que eu pudesse sê-lo caso o desconhecesse, preciso colocar aqui outra descrença que tenho, quando se trata de imparcialidade, porque todos nós colocamos o que somos naquilo que fazemos.
Por ter feito meu trabalho final na graduação em hibridismo narrativo e, como dissertação de mestrado, ter trabalhado com hibridismo cultural, foi inevitável ter encontrado diversos traços híbridos ao longo dos textos. Quando falamos sobre gêneros literários híbridos logo nos lembramos dos romances, por ser um gênero longo pode facilmente ser açambarcador. Contudo, gêneros curtos podem mostrar diversas características de hibridismo. “Não conto” nos mostra isso, quando coloca suas crônicas misturadas a versos, listas e o que em alguma medida me remete a operações matemáticas “Honestidade>Verdade”.
Meu primeiro pensamento sobre o título foi da obviedade de que o autor quis dizer “Não é um conto”. Um conto é uma narrativa que apresenta uma única célula narrativa (com começo, meio e fim), o que os textos não apresentam. Isso nos faz tropeçar no velho dilema da definição, de nós mesmos e do mundo. Eu sei o que eu não sou, eu sei o que eu não quero... Nós podemos criar uma lista com um milhão de itens daquilo que não somos. Não sou meu nome, minha profissão ou meu sexo... Não sou o papel que executo na minha família ou no meu relacionamento... Não sou, não sou, não sou... E no final da lista ainda há uma infinidade daquilo que eu posso ser. É muito o que se sobra para ser. A negativa não resolve o grande problema da falta de definição. Não acredito que a falta de definição seja um problema do livro, mas um problema da vida. Os textos são um retrato desse dilema: “não é um conto”, então eu tiro apenas um item e me sobra uma infinidade de outras coisas que possa ser. Apenas um dos grandes paradoxos dessa obra. “Como tentar pegar água na peneira”.
Seria tolo e superficial de minha parte aterme ao título somente pela indefinição do gênero literário. “Não conto” no sentido de “não digo” ou “não revelo” quando tudo o que é feito é contar, revelar e expor. Como um vômito emocional ou um ato de despir-se. Conta-se e revela-se muito, num profundo paradoxo metalinguístico, quando os textos tratam apenas dos textos e explicam por que são textos, o porquê da capa, o porquê de ser o que é. Se é que se descobriu quem é, em experiência loucas e às vezes escatológicas. Incontáveis experiências, e novamente entramos em outra definição da palavra. Não conto, não posso quantificar.
A crônica de abertura “O olho” fez-me remeter À História do Olho de George Bataille, assim como na crônica sujeira, em que lidamos com a imundice, parte fundamental da vida. Não há limpeza sem que haja a sujeira. O incômodo e o imundo, que me lembram Bataille, são bastante presentes nessa obra; ao lado da leveza e da doçura. O amor romântico e o amor fraterno, num mergulho existencialista, melhor dizer, talvez um salto, na teoria sartriana. O Inquietamento tão íntimo da existência humana, a indecisão e a inconclusão – esses últimos me trouxeram à mente Paulo Leminski, não posso deixar de citar. A literatura que não traz respostas, pelo contrário nos deixa com ainda mais dúvidas. O inconclusivo, quase frustrante da realidade. “Entendi, ou estava me escondendo, fugindo ou me salvando. Acho que não entendi”.
A crônica Janela, com uma reflexão filosófica das banalidades da vida, que se repete em diversas vezes na obra. Traz a sensibilidade no olhar de um autor que é capaz de ver grandeza na pequenez, aqui me remete crônica A pantufa desparelhada de Ítalo Calvino. Como na crônica Atrasada em que a máquina de costura da avó se torna poesia, com as partículas de poeira à luz. Os dias quentes de verão, um passeio de carro, olhar pela janela... Tudo se torna uma tela pintada, em palavras, na poética dessa coletânea de crônicas.
Por último, de modo algum menos importante, devo citar a metalinguagem da obra. As palavras buscando definir-se, buscando conceitos que parecem nunca alcançar, enquanto lemos a obra sendo feita, a indecisão dos títulos, o porquê da escrita, as inspirações e as visões por trás. Não conto traz ao leitor a invasão do espaço íntimo do autor, que por mais íntimo que se transmita ainda nos deixa no indecifrável enigma do ser.
Luana Lima de Sousa
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